A ABORDAGEM CIENCIARTE NO ENSINO DE CIÊNCIAS EM CONTEXTO AMAZÔNICO-MARAJOARA: CONTRIBUIÇÕES PARA A CONSTRUÇÃO DE EXPLICAÇÕES CIENTÍFICAS NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL
Educação Científica. Integração entre Ciência e Arte. Sequência Didática. Cerâmica Marajoara. Transformações da Matéria.
Esta dissertação, no campo do Ensino de Ciências nos anos iniciais do Ensino Fundamental (EF), analisa as contribuições de uma sequência didática (SD) fundamentada na abordagem CienciArte, compreendida como matriz epistemológica integradora que articula investigação científica, expressão estética e mediação socioterritorial na construção do conhecimento. A investigação parte da constatação de que modelos didático-pedagógicos ainda apresentam dificuldades para articular conhecimento científico, experiência sociocultural e contextos de vida. Nesse contexto, a cerâmica marajoara foi mobilizada como referência cultural e elemento estruturante de experiências investigativas voltadas à compreensão das transformações da matéria e à elaboração de explicações científicas acerca desse fenômeno. O estudo analisou de que modo uma SD articulada à abordagem CienciArte contribui para a compreensão das transformações da matéria e para a elaboração de explicações científicas por estudantes dos anos iniciais do EF. De natureza qualitativa, a pesquisa foi desenvolvida sob os pressupostos da pesquisa-ação em uma escola pública municipal de Soure, na Ilha do Marajó (PA), junto a uma turma do 4º ano, integrando a atuação da pesquisadora como professora regente ao percurso investigativo. O corpus, constituído por questionários, diários de bordo, relatórios experimentais, produções artísticas e demais registros da investigação, foi analisado com base nas Treze Categorias Cognitivas propostas por Robert Root-Bernstein e Michele Root-Bernstein, adotadas como lente interpretativa dos processos cognitivos mobilizados pelos estudantes. Os resultados evidenciam deslocamentos significativos nos modos de interpretar as transformações da matéria, expressos na passagem de descrições predominantemente perceptivas para explicações sustentadas por relações causais mais consistentes. Observou-se ampliação da capacidade de identificar etapas do processo cerâmico, distinguir mudanças reversíveis e irreversíveis e reconhecer o aquecimento como agente da transformação irreversível da argila em cerâmica. As evidências também indicam a mobilização de processos cognitivos como observação, reconhecimento de padrões, comparação, modelagem e elaboração simbólica, bem como a participação das múltiplas linguagens na elaboração de explicações científicas. Como Produto Educacional (PE), elaborou-se um guia didático digital acompanhado de um fotolivro, destinados a professores dos anos iniciais do EF para subsidiar práticas investigativas culturalmente referenciadas no Ensino de Ciências. No plano teórico, os resultados sustentam que a aprendizagem científica se constitui na articulação entre experiência, linguagem, cultura e investigação, evidenciando o potencial da territorialidade na atribuição de sentidos às aprendizagens, da recursividade na retomada dos percursos investigativos e da espiralidade no aprofundamento progressivo das compreensões construídas. Conclui-se que a integração entre ciência, arte e território amplia as possibilidades de compreensão dos fenômenos naturais e favorece a elaboração de explicações científicas culturalmente referenciadas, reafirmando a potência de abordagens investigativas ancoradas nos territórios de vida para a produção de sentidos e a construção do conhecimento científico escolar.